quinta-feira, 30 de abril de 2009

Uma verdadeira mulher

Foto de  Stephane Milhomme
Hoje quero contar-vos uma história. A história de uma amiga, de uma pessoa que gostou muito de mim. 
Foi minha professora da primária, e nessa altura dava-me imensa atenção, livros, lápis e pincéis, para eu me entreter enquanto ela explicava a matéria aos outros meninos. Emprestava-me até os seus lápis carandache, uma caixa magnífica com mais de 40 lápis. 
Nesses anos eu fui crescendo, sempre a menina gordinha com quem ninguém queria brincar. Sempre a menina que queria agradar os outros, conquistá-los e fazer amigos, mas passava a hora de intervalo a dar voltas sozinha pelo passeio da escola, em volta do edifício, com as mãos nos bolsos da bata aos quadradinhos, e os olhos no chão. 
Acho que não fui tão "feliz" quanto os outros, nem brinquei tanto quanto os outros, mas aprendi mais que os outros e cresci mais do que eles, e cheguei mais longe.
A minha professora compreendia-me incentivava-me, dava-me mais coisas para explorar, mais formas de aprender. 
Depois eu fui para outra escola, e continuava a visitar a professora na velha escola da primária sempre que podia.  
Entretanto ela sofreu um cancro da  mama, que superou, apesar de ter feito quimioterapia, ter retirado um peito, continuava a mesma mulher, alta e vistosa, e cheia de força, a mesma mulher que era o meu modelo de verdadeira mulher. 
Quando eu entrei para a universidade ela ficou feliz comigo. 
As vezes que a fui vendo foram escasseando. 
Até que no ano passado a encontrei, e lhe contei que tinha terminado o curso, que estava finalmente a trabalhar, e ela abraçou-me de alegria! Falamos um bocado, das imensas actividades em que ela se envolve sempre, do meu excesso de peso - incentivou-me a emagrecer... porque as pessoas amigas, não dizem só o que é fácil, olás e palmadinhas nas costas! 

Até que há uns tempos atrás contaram à minha mãe que ela havia morrido, e eu continuo sem saber se hei-de ou não acreditar. Porque me custa muito que aquela mulher vigorosa e vencedora já não esteja aqui. E também me custa saber que eu não  posso dizer-lhe estou decidida a emagrecer e contar com o seu apoio... ou que por acaso a poderei encontrar na rua... porque aquela mulher gostou de mim quase tanto como uma mãe, e sofreu por mim quando eu sofri, e orgulhou-se de mim.
Custa-me a acreditar. Às vezes quando percorro as ruas da cidade tenho o pressentimento  de a ver no dobrar da esquina, aparecer com o seu olhar altivo, no topo do seu metro e oitenta, com o cabelo curto de onde sobressaiam os olhos verdes na tez morena, sempre radiante. 

3 comentários:

  1. Adorei :) Também eu tive uma professora na 3ª e 4ª classe, não tão chegada como a tua, mas alguém de quem gostava mto e que continuei sempre a visitar até ela se reformar, já tinha eu acabado o curso. Ainda há pouco tempo pensei em pedir o número dela, se calhar é mesmo isso que vou fazer hoje! Beijinhos :)

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  2. Fazes muito bem. Eu também devia ter feito o mesmo nos 5 anos de curso em que estive longe... devemos aproveitar as pessoas enquanto as temos.

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  3. ela não está aqui fisicamente pq terminou a missão dela,mas tenho a certeza que onde ela está neste momento continua a olhar por ti,e tu vais emagrecer sim por ti(pq n te sentes bem assim)e para a homenagear.
    bjs

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